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Cultura

Praça do Sebo: 45 anos de livros, gibis e histórias no coração do Centro do Recife

Mesas e cadeiras amarelas e vermelhas dos bares da Praça do Sebo, com guarda-sóis abertos, sob os prédios do Centro do Recife
Foto: Claudia Andrade, editora-chefe do Manguetown

Tem lugar no Recife que a gente não precisa explicar. Basta dizer “vou ali na Praça do Sebo” que todo mundo entende: é dia de garimpar livro, folhear gibi, trocar uma ideia e, no fim, tomar uma gelada num boteco ali do lado. Em agosto de 2026, esse clássico da vida recifense completou 45 anos, e continua de portas abertas — e de coração aberto — para todo mundo.

Serviço: como chegar e quando ir

  • Endereço: Rua da Roda, Praça do Sebo, Santo Antônio, Centro do Recife (entre a Avenida Guararapes e a Avenida Dantas Barreto)
  • Horário: segunda a sexta, das 8h às 18h; sábado, das 8h às 13h; fechado aos domingos
  • Entrada: livre. É uma praça pública, com acesso gratuito.

Os boxes são de pequenos comerciantes independentes, e cada um define seu próprio ritmo. Vale chegar com calma e, se tiver um título específico em mente, perguntar: os sebistas costumam saber onde está (e muitas vezes têm no fundo do estoque).

Livro, gibi, mangá e tudo o que a leitura permitir

Na Praça do Sebo cabe todo tipo de literatura. São 19 boxes com livros raros, novos e usados, além de revistas, discos, jornais, almanaques, folhetos, cordéis e postais. Quem curte histórias em quadrinhos e mangás também se acha por ali, assim como o estudante atrás do clássico da lista de leitura, o colecionador à caça de edições esgotadas e a criança que acabou de descobrir que ler pode ser uma aventura.

É um dos poucos lugares do Centro onde o vovô, a mãe, o adolescente de uniforme e o turista curioso dividem o mesmo corredor, cada um atrás do seu tesouro. E o melhor: o preço do sebo cabe no bolso, o que faz do hábito de ler uma coisa mais democrática.

Seu Ivanildo e os gatos da praça

Toda praça querida tem alguém que é a cara dela. Na Praça do Sebo, uma das figuras mais conhecidas é seu Ivanildo, que hoje toma conta dos gatos de rua que fazem da praça a sua casa. Quem passa por ali já se acostumou a ver os bichanos espreguiçando entre os boxes, sempre sob as vistas atentas dele.

E é seu Ivanildo quem resume o espírito do lugar numa frase que serve para qualquer visitante, principalmente para quem ainda chega meio desconfiado:

“Aqui não precisa ter medo de nada não, é só chegar e ficar à vontade.”

Quebrando a fama do Centro

O recado de seu Ivanildo tem um motivo. O Centro do Recife carrega, há muito tempo, a fama de ser um lugar perigoso, com histórias de assalto e de “gente de má-fé”, como contam os mais antigos. A Praça do Sebo, como todo o bairro, não escapou desse rótulo.

Só que a vivência de quem frequenta conta outra história. Hoje a praça é um espaço movimentado e acolhedor, de gente que se conhece pelo nome, que guarda o livro separado para o freguês e que faz questão de receber bem quem chega pela primeira vez. Ocupar a rua, circular, comprar do pequeno comerciante e voltar sempre é, aliás, uma das melhores formas de cuidar do Centro.

Livro na mesa, petisco no balcão

Quem acha que a Praça do Sebo é só para leitor está perdendo metade do programa. Nos bares ao redor, o cardápio é de boteco clássico, daqueles de petisco na mesa, cerveja gelada e conversa que se estende. É comum o pessoal escolher o livro, sentar para folhear, pedir uma porção e passar a tarde ali. A praça foi virando, com o tempo, um lugar afetivo do seu público cativo: gente que vai por hábito, por saudade e por amizade, não só para comprar.

Uma história que começou nas calçadas

Os primeiros sebos do Recife surgiram na década de 1920, de forma bem simples, e foram conquistando leitores e colecionadores. Antes da praça, os livreiros da cidade se concentravam na Rua Infante Dom Henrique, onde vendiam os livros em tábuas. Para dar um endereço fixo e digno aos sebistas, nasceu a Praça do Sebo, inaugurada em 26 de agosto de 1981, com espaço para 19 boxes.

O escritor Liêdo Maranhão, grande frequentador e amigo dos livreiros, esteve entre as figuras ligadas à origem da praça e chegou a escrever sobre eles em suas obras. Em 2022, o lugar passou a se chamar oficialmente Praça do Sebo Liêdo Maranhão, em homenagem a ele.

O cenário é um capítulo à parte: um conjunto arquitetônico em art déco, dos anos 1940, abraça a praça e dá ao lugar um clima nostálgico. Ali também fica a estátua do poeta Mauro Mota, que integra o Circuito da Poesia da cidade. A Prefeitura entregou, em dezembro de 2021, a primeira etapa da revitalização do espaço.

45 anos e muito a contar

O aniversário foi celebrado em agosto de 2026 com uma manhã de programação cultural dedicada à literatura: exibição de trecho de documentário sobre a praça, lançamentos de livros e de cordel, exposição fotográfica sobre os sebos como ecossistema da leitura e apresentações musicais.

A Praça do Sebo é a única praça de sebos do Brasil, e isso, para quem é do Recife, é motivo de orgulho. O movimento já foi maior, e os sebistas sabem disso. Mas, enquanto houver gente disposta a ler, a conversar e a ocupar a cidade, ela segue de pé, cheia de histórias esperando um novo leitor.

Então fica o convite: vá até a Rua da Roda, escolha um livro, converse com os sebistas, faça carinho num gato e prove um petisco. Quarenta e cinco anos depois, a praça continua sendo exatamente o que sempre foi: um pedaço do Recife onde todo mundo cabe.

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